Mais um casarão desaba no Centro de Cuiabá: “Prejuízo histórico”
Parte da estrutura e do telhado de um casarão no Centro Histórico de Cuiabá desabou nesta quarta-feira (1º) e voltou a expor o abandono do patrimônio arquitetônico histórico da Capital.
Informações preliminares indicam que um casal em situação de rua estava vivendo no imóvel abandonado, localizado na Rua 7 de Setembro, e que a estrutura teria cedido após a retirada de uma porta, supostamente para ser vendida.
Moradores e comerciantes da região, que há anos acompanham a deterioração dos casarões históricos, veem com tristeza o desabamento. Em março, o prédio da antiga Gráfica Pepe, também sofreu um desabamento parcial da estrutura.
Dona do Ranchinho do Guaraná, ponto tradicional instalado ao lado do Beco do Candeeiro, a comerciante Henriette Barbosa, de 68 anos, contou ter crescido no Centro Histórico e afirmou ter visto a região perder, pouco a pouco, o movimento e a identidade que marcaram gerações.
Segundo Henriette, o imóvel pertencia à tradicional família Addor e, por muitos anos, foi ocupado por dona Marizinha, uma das últimas moradoras. Após o seu falecimento, o imóvel teria sido vendido para uma mulher conhecida na região como "Dona Suzi", que seria proprietária de outros casarões no Centro Histórico.
"Eu acho que as nossas histórias vão se deteriorando, vai acabando tudo. Passa um filme na cabeça da gente de como era e como está hoje. A Rua 7 de Setembro era só de famílias que moravam aqui. Acabou tudo", lamentou.
A comerciante relatou que usuários de drogas passaram a ocupar o imóvel após ele ficar vazio. "Eles entram, fazem sujeira, usam de vaso sanitário. Uma bagunça", afirmou.
Na noite anterior ao desabamento, diz ter ouvido relatos de que pessoas tentavam retirar as antigas portas de madeira da residência.
"O pessoal começou a tirar o portal. Quiseram arrancar as portas de madeira para vender e aí desabou. Foi isso que comentaram", afirmou.
Para o museólogo Aser Castilho, guia do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (Misc), cada desabamento representa uma perda irreparável para a memória da cidade.
"É um momento de luto para a história. Cada parede, cada adobe que rui é um prejuízo histórico sem condições de reparo. É como ver um pedaço da história da Cuiabá antiga desmoronar diante dos nossos olhos", disse.
Segundo ele, embora seja possível reconstruir parte da estrutura, a originalidade do imóvel jamais será recuperada.
"Tudo aquilo que fica abandonado está fadado à ruína. Não há nada que você abandone que não sofra com a ação do tempo, do espaço e da marginalidade", completou.
Castilho afirmou que o caso reforça a necessidade de políticas públicas permanentes para a preservação do Centro Histórico e lembrou que outros imóveis importantes já sofreram o mesmo destino, como a antiga Gráfica Pepe.
Morador da região há 57 anos, Márcio, que preferiu não informar o sobrenome, também vê o episódio com tristeza. Para ele, preservar os casarões significa manter viva a história da Capital.
"Tem que dar mais valor ao nosso patrimônio histórico. Isso aqui conta a história de Cuiabá. Cada casarão tem uma história bonita e precisa ser preservado", afirmou.
Ele defendeu que os proprietários recebam incentivos para restaurar os imóveis antigos.
"Como a pessoa vai conseguir arrumar um casarão desse sem apoio? Tem que existir uma parceria. Cada imóvel conta a história de uma família que ajudou a construir Cuiabá", disse.










