Setor de carne bovina diz que cota e tarifa da China podem custar US$ 3 bilhões
O setor de carne bovina brasileira terá que rever produção e exportação do produto porque as cotas de importação anunciadas pela China são menores que o total que vem sendo vendido pelo Brasil ao país, com impacto potencial da ordem de até US$ 3 bilhões (ou cerca de R$ 16,5 bilhões) em receitas para o Brasil em 2026.
O que aconteceu
Produtores de carne bovina dizem que medidas anunciadas pela China vão obrigar setor a reorganizar fluxos de produção e exportação. A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) e a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) afirmam, em nota conjunta, que a adoção de medidas de salvaguarda pelo governo chinês à importação de carne bovina "altera as condições de acesso ao mercado" e "impõe necessidade de reorganização dos fluxos de produção e de exportação".
Abrafrigo estima que medidas podem provocar perda de até US$ 3 bilhões em receitas para o Brasil em 2026. Segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos, a receita do setor com exportações à China deve alcançar aproximadamente US$ 9 bilhões neste ano. "Os efeitos podem se estender por toda a cadeia produtiva, com reflexos sobre geração de renda, emprego e investimentos no campo", disse a entidade em nota.
China anunciou limites de importação para carne bovina acima dos quais haverá tarifas extras a partir de hoje (1º). No caso do Brasil, a cota será de 1,106 milhão de toneladas em 2026, com tarifa de 12% para os volumes dentro deste porcentual. A sobretaxa será de 55% para os volumes excedentes, resultando em tarifa de 67% fora da cota.
Volume de exportação brasileira de carne bovina à China supera cota do país. Em 2025, as importações chinesas de carne bovina brasileira devem chegar a 1,7 milhão de toneladas, ou seja, quase 600 mil toneladas das exportações já estariam sujeitas à tarifa extra de 55%.
Importações chinesas de carne bovina brasileira representam 48,3% do volume exportado. Nesse cenário, passam a ser necessários ajustes ao longo de toda a cadeia, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos, segundo apontam a Abiec e a CNA em nota
Brasil é principal fornecedor da proteína vermelha ao mercado chinês. Neste ano, no acumulado até novembro, o país já exportou 1,499 milhão de toneladas de carne bovina ao mercado chinês, somando US$ 8,028 bilhões, portanto, já acima da cota de 1,106 milhão de toneladas.
Produtores e exportadores dizem que China permanece como o principal destino da carne bovina brasileira. As compras chinesas representam "importante mercado para o funcionamento da pecuária nacional", afirmam Abiec e CNA. Segundo as entidades, esses embarques dizem respeito a produtos com valor agregado e perfil distinto do consumo doméstico, associados à geração de emprego e renda no setor.
"As exportações brasileiras para a China são fruto de relação comercial construída ao longo de anos, baseada em fornecimento regular, previsibilidade e estrito cumprimento dos requisitos sanitários e técnicos acordados entre os dois países. A carne bovina brasileira, reconhecida por sua qualidade, exerce papel complementar no abastecimento do mercado chinês e contribui para a estabilidade da oferta ao consumidor", Abiec e CNA em nota.
Abiec e CNA vão analisar meios de mitigar impacto da decisão chinesa. Segundo as entidades, o setor vai buscar medidas junto ao governo brasileiro e às autoridades chinesas para "reduzir os danos que essa sobretaxa causará aos pecuaristas e exportadores brasileiros e para preservar o fluxo comercial historicamente praticado".
China anunciou hoje a adoção de salvaguarda contra a importação de carne bovina de diversos países. Volumes que superarem cotas determinadas terão que pagar uma tarifa adicional de 55%. As medidas entram em vigor amanhã e serão implementadas por três anos até 31 de dezembro de 2028. Além do Brasil, medida atinge outros países, como Estados Unidos, Argentina, Uruguai e Austrália.
Ministério do Comércio chinês justifica medidas para proteger indústria nacional. Após investigação sobre mercados de carne bovina fresca, congelada, com e sem osso, o governo concluiu que os preços têm apresentado tendência de queda nos últimos anos, com excesso de oferta e falta de demanda.
Posição do governo brasileiro
Governo brasileiro diz que tem agido de forma coordenada com o setor privado. O MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) afirma que vai seguir atuando junto ao governo chinês tanto em nível bilateral quanto no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio), com vistas a mitigar o impacto da medida e defender os interesses legítimos dos trabalhadores e produtores do setor.
"As medidas de salvaguarda são instrumentos de defesa comercial previstos nos acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC) utilizados principalmente para lidar com surtos de importação. A medida não tem por objetivo combater práticas desleais de comércio e é aplicada às importações de todas as origens", MDIC em nota.
Segundo governo brasileiro, China respondeu por 52% das vendas externas do setor de carne bovina em 2024. O Brasil, por sua vez, é a principal origem das importações do produto no mercado chinês. "Ao longo dos últimos anos, o setor pecuário brasileiro tem contribuído de maneira consistente e confiável para a segurança alimentar da China, com produtos sustentáveis e competitivos, submetidos a rigorosos controles sanitários", afirma o MDIC em nota.










