Pérsio Landim: agronegócio na era digital, a nova fronteira da segurança no campo
O agronegócio brasileiro atravessa uma transformação estrutural silenciosa, porém profunda. Se antes sua competitividade era medida por produtividade, extensão de terra e capacidade logística, hoje um novo ativo assume protagonismo: os dados.
A digitalização do campo, impulsionada pela agricultura de precisão, sensoriamento remoto, softwares de gestão rural, inteligência artificial e integração de cadeias produtivas, tornou o setor altamente dependente de fluxos contínuos de informação. Produção, clima, solo, crédito, rastreabilidade e logística passaram a compor um ecossistema digital complexo, no qual decisões estratégicas são cada vez mais orientadas por dados.
Nesse cenário, a segurança da informação no agronegócio deixa de ser uma questão exclusivamente tecnológica e passa a integrar o núcleo da gestão estratégica do negócio rural.
Tradicionalmente, o ativo central do produtor rural era a terra. Hoje, esse conceito se expande para incluir bases de dados agronômicos, históricos de produtividade, mapas de fertilidade, registros de maquinário conectado e informações comerciais sensíveis.
Esses dados possuem valor econômico direto. São capazes de influenciar decisões de mercado, negociações com tradings, acesso a crédito e até precificação de ativos agrícolas. Em muitos casos, representam vantagem competitiva acumulada ao longo de safras.
A consequência natural dessa transformação é que o dado agrícola passa a ser também um ativo vulnerável.
A expansão da conectividade rural trouxe ganhos expressivos de eficiência, mas também ampliou a superfície de exposição a riscos cibernéticos. Sistemas de gestão agrícola baseados em nuvem, sensores IoT em máquinas agrícolas e plataformas de comercialização digital criaram novos pontos de entrada para ataques, vazamentos ou uso indevido de informações.
Diferentemente de setores tradicionalmente digitais, o agronegócio ainda atravessa um processo de maturação em governança de dados. Em muitos casos, há integração entre sistemas sem padronização robusta de segurança, o que amplia vulnerabilidades.
Além disso, a cadeia do agronegócio é altamente interdependente: produtores, cooperativas, revendas, indústrias e instituições financeiras compartilham informações sensíveis em múltiplas plataformas. Essa interconexão, embora essencial para eficiência operacional, também exige padrões elevados de proteção e controle de acesso.
A entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no Brasil estabeleceu um marco regulatório importante para o tratamento de dados pessoais, inclusive em ambientes rurais e agroindustriais.
Embora muitas discussões sobre LGPD se concentrem em setores urbanos e digitais, sua aplicação no campo é igualmente relevante, especialmente quando há tratamento de dados de colaboradores, fornecedores, parceiros comerciais e clientes.
Mais do que uma obrigação legal, a conformidade com a LGPD representa uma oportunidade de amadurecimento institucional do setor, promovendo maior transparência, rastreabilidade e confiança nas relações comerciais.
A proteção de dados no agronegócio não deve ser vista apenas sob a ótica da mitigação de riscos, mas também como elemento de competitividade.
Empresas e produtores que estruturam políticas sólidas de governança digital tendem a apresentar maior capacidade de integração com mercados internacionais, acesso facilitado a crédito e maior confiabilidade em processos de auditoria e certificação.
Em um ambiente global cada vez mais orientado por padrões ESG e rastreabilidade, a segurança da informação torna-se parte integrante da sustentabilidade do negócio rural.
O agronegócio brasileiro sempre demonstrou capacidade de adaptação tecnológica, incorporando inovações que ampliaram sua produtividade e alcance global. A atual fronteira dessa evolução está no campo da informação.
Garantir a segurança dos dados no ambiente agro não é apenas uma questão técnica, mas estratégica. Trata-se de proteger ativos intangíveis que hoje são tão relevantes quanto a própria produção física.
Nesse novo cenário, o futuro do agro não depende apenas da terra, da chuva ou da tecnologia embarcada nas máquinas, mas também da integridade, confiabilidade e segurança dos dados que sustentam toda a cadeia produtiva.
Crédito: Pérsio Landim, advogado especialista no agro










