Golpes com uso da identidade do Judiciário crescem, alerta o advogado Pérsio Landim
Golpistas que se passam por juízes, desembargadores e advogados têm intensificado fraudes financeiras em diferentes regiões do país, sobretudo por meio de aplicativos de mensagens. O avanço desse tipo de crime motivou tribunais estaduais a divulgarem comunicados oficiais para alertar cidadãos sobre abordagens fraudulentas.
As ações criminosas costumam seguir um mesmo roteiro: uso de informações verdadeiras extraídas de processos judiciais, nomes de magistrados e advogados regularmente inscritos, além de imagens institucionais, logotipos e comprovantes bancários adulterados. A combinação desses elementos confere aparência de legitimidade às abordagens.
Contato fraudulento em nome de magistrados
Entre os golpes mais recorrentes está o chamado “falso juiz”. Nessa prática, o criminoso entra em contato com a vítima por telefone ou aplicativo de mensagens, apresenta-se como magistrado e afirma estar em deslocamento oficial ou em atividade reservada.
Após estabelecer o contato, solicita a indicação de motorista ou transporte particular. Em seguida, encaminha um comprovante de pagamento com valor superior ao acordado. Alegando equívoco na transferência, pressiona a vítima a devolver imediatamente a diferença. O comprovante, no entanto, é falso, e o valor devolvido corresponde a dinheiro real.
Falsos advogados e cobranças indevidas
Outra modalidade em crescimento envolve criminosos que se apresentam como advogados ou representantes de escritórios de advocacia. Eles entram em contato com partes de processos judiciais informando que valores estariam próximos de liberação, condicionando o recebimento ao pagamento antecipado de taxas, custas ou despesas administrativas.
De acordo com dados da OAB/SP, por exemplo,mais de 1,3 mil denúncias desse tipo foram registradas no Estado de São Paulo em 2025. Há casos em que os golpistas utilizam recursos tecnológicos para ocultar ou simular números telefônicos oficiais, técnica conhecida como caller ID spoofing.
Acesso a dados facilita golpes
Segundo especialistas, a ampla publicidade dos atos processuais, prevista na legislação brasileira, acaba sendo explorada por organizações criminosas. Como a maioria dos processos é pública, informações sensíveis acabam sendo utilizadas para tornar as abordagens mais convincentes.
Para o advogado Pérsio Landim, a credibilidade institucional do Judiciário é o principal instrumento utilizado pelos golpistas. Ele destaca que a utilização de dados reais dos autos cria uma falsa sensação de segurança nas vítimas.
Orientações para prevenção
Landim ressalta que a prevenção começa na própria atuação dos advogados, com a orientação prévia dos clientes sobre a possibilidade de golpes, especialmente os praticados em nome de profissionais da advocacia.
Segundo ele, mensagens inesperadas, pedidos de pagamento por aplicativos de mensagens ou cobranças fora dos canais tradicionais devem ser tratadas com cautela.
O advogado também recomenda que a população confirme qualquer solicitação de pagamento ou promessa de liberação de valores diretamente com o profissional que atua no processo, utilizando telefones e e-mails previamente conhecidos.
Entre as principais orientações destacadas estão:
- Desconfiar de contatos com tom de urgência ou pressão psicológica;
- Evitar clicar em links ou enviar documentos pessoais por mensagens;
- Consultar a movimentação processual apenas nos sites oficiais dos tribunais;
- Confirmar informações diretamente com o advogado constituído;
- Registrar boletim de ocorrência em caso de tentativa ou consumação do golpe.
Esclarecimentos do Judiciário
Os tribunais reforçam que magistrados não fazem contato direto com partes por aplicativos de mensagens ou redes sociais para tratar de processos judiciais. O Judiciário também não solicita pagamentos, dados bancários ou transferências fora dos sistemas oficiais.
As comunicações institucionais ocorrem exclusivamente por meio dos sistemas processuais, por oficiais de justiça identificados ou por canais com domínio oficial “.jus.br”.
Medidas em discussão
Para reduzir a exposição de dados sensíveis, Pérsio Landim defende a adoção de mecanismos de sigilo parcial nos sistemas eletrônicos do Judiciário, preservando a publicidade processual sem comprometer informações pessoais.
Em 2025, o Conselho Federal da OAB encaminhou pedido ao CNJ para a criação de normas voltadas à proteção de dados de partes e advogados. O TJ/DF já adotou procedimento semelhante, com armazenamento separado de informações sensíveis.
Além disso, a OAB Nacional lançou a plataforma ConfirmADV, que permite a verificação da identidade de advogados antes de qualquer pagamento ou compartilhamento de dados.










