Guerra no Oriente Médio pressiona diesel e eleva custos do agro no Brasil, avalia Pérsio Landim
A escalada do conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã já começa a produzir reflexos diretos na economia brasileira, especialmente no agronegócio. Para o advogado e analista Pérsio Landim, o principal impacto imediato ocorre no aumento do preço do petróleo no mercado internacional, que pressiona o diesel e eleva os custos logísticos do campo justamente no momento mais sensível do calendário agrícola.
Segundo Landim, o agronegócio brasileiro “sente rapidamente qualquer oscilação no preço dos combustíveis”, pois o diesel é essencial tanto para o funcionamento das máquinas nas lavouras quanto para o transporte da produção até os portos. A alta ocorre em meio ao pico da colheita de grãos e ao plantio da segunda safra de milho, período em que o consumo de combustível aumenta significativamente.
“O campo brasileiro acaba sendo impactado de forma indireta por conflitos internacionais. Quando o petróleo sobe, o diesel acompanha e toda a cadeia logística do agro fica mais cara”.
Produtores e entidades do setor já relatam aumentos considerados injustificados no preço do combustível e nos fretes rodoviários. Nas fazendas, combustíveis e lubrificantes representam cerca de 5% do custo operacional na colheita da soja, percentual que pode subir rapidamente em momentos de instabilidade internacional. Em outras culturas, como a cana-de-açúcar, o peso é ainda maior, podendo chegar a 20% do custo de produção.
Especialistas em logística agrícola também alertam para os reflexos no transporte. O pesquisador Fernando Bastiani, do grupo EsalqLog da Esalq/USP, afirma que, caso o petróleo tipo Brent permaneça próximo de US$ 100 por barril, o preço do diesel pode subir cerca de 20%, o que teria potencial para elevar os fretes agrícolas em aproximadamente 10%.
Além da pressão no mercado doméstico, o conflito também afeta o transporte marítimo internacional. O tráfego comercial de petróleo pelo Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do abastecimento mundial — foi interrompido, elevando o custo global do frete e ampliando a instabilidade no comércio internacional de energia.
Para Pérsio Landim, esses custos tendem a se espalhar por toda a cadeia produtiva. “O aumento do frete e da logística pode acabar chegando ao produtor rural, seja por custos maiores de transporte ou por redução nos preços pagos pelas commodities”, explica.
O cenário se torna ainda mais desafiador porque o agronegócio brasileiro já enfrentava gargalos logísticos antes mesmo da tensão internacional. No terminal portuário de Miritituba, no Pará, caminhões carregados com soja chegaram a enfrentar filas superiores a 25 quilômetros para descarregar nos terminais de grãos, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).
O congestionamento costuma ocorrer no pico da colheita, entre fevereiro e abril, quando o fluxo de cargas aumenta significativamente. Neste ano, porém, a situação se agravou com a expectativa de uma safra recorde estimada em cerca de 180 milhões de toneladas.
Para Landim, o momento exige atenção das autoridades e planejamento logístico. “O Brasil tem uma das maiores produções agrícolas do mundo, mas continua vulnerável a choques externos e problemas internos de infraestrutura. Quando esses fatores se somam, quem paga a conta é o produtor e toda a cadeia do agronegócio”, conclui.










